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sábado, 2 de agosto de 2014

Se Tu Viesses Ver-me

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha, 
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha, 
E me prendesses toda nos teus braços... 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 
A tua boca... o eco dos teus passos... 
O teu riso de fonte... os teus abraços... 
Os teus beijos... a tua mão na minha... 

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca... 
Quando os olhos se me cerram de desejo... 
E os meus braços se estendem para ti... 

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

domingo, 16 de junho de 2013

Segredo

Catarina Quixabeira 

Te amo mesmo sem te conhecer
Te amo em confessado segredo
Um destes enigmas que não consigo entender
Que aos poucos me é revelado

Desejava poder te falar
Sentimento verbalizado
Gestos a me denunciar
Alma e coração desnudados

Agora conheces o meu querer
Meus sonhos, alegrias e emoçoes
Não há mais segredos entre eu e você
Mergulho em incertezas e sensações

Quero entender o teu silenciar
O não poder ou querer
Mas continuo a te amar
Teimo em não te esquecer

O Amor



Fernando Pessoa


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.


Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!


Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços… 

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha… 

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…
Florbela Espanca

domingo, 29 de maio de 2011

Soneto da Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento



Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto


Que mesmo em face do maior encanto


Dele se encante mais meu pensamento.





Quero vivê-lo em cada vão momento


E em seu louvor hei de espalhar meu canto


E rir meu riso e derramar meu pranto


Ao seu pesar ou seu contentamento





E assim, quando mais tarde me procure


Quem sabe a morte, angústia de quem vive


Quem sabe a solidão, fim de quem ama





Eu possa me dizer do amor (que tive):


Que não seja imortal, posto que é chama


Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.




sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Por um minuto apenas

Por um minuto apenas
Distribui a alegria
Com quem sofre sozinho
A dor de cada dia

Dispõe de tuas vestes
Agasalhando os nus
Por um minuto apenas
Em nome de Jesus

Por um minuto apenas
Fala a palavra boa
Que esclarece e ilumina
Encoraja e abençoa

Por um minuto apenas
Sem pensar em revide
Ante qualquer ofensa
Perdoa quem te agride

Se te sentes cansado
Nesta estrada distante
Por um minuto apenas
Leva esta cruz adiante

E então perceberás
Vencendo as próprias penas
O quanto foste feliz
Em um minuto apenas




 Médium Carlos A. Baccelli. Espírito Eurícledes Formiga. Livro Dor e Luz.